Reflexões
A liberdade que eu cantava sem saber
Eu cantava Freedom! ’90 sem saber. Era adolescente quando ouvi aquela música pela primeira vez e gostava de escrever. Tinha diário, anotava pensamentos e sentimentos que talvez não soubesse expressar em voz alta. Eu sonhava em morar na Europa, conhecer o mundo, viajar e falar outras línguas. Queria ser alguém maior, diferente, fazer a diferença. Mas, ao mesmo tempo, sempre fui muito atenta às pessoas, às necessidades de quem estava perto e ao que poderia tornar a vida de alguém melhor. Eu queria conhecer o mundo, mas não queria passar por ele sem enxergar as pessoas.
Talvez por isso Freedom! ’90 tenha encontrado um lugar tão especial dentro de mim. Eu simplesmente gostava, muito. Mas hoje penso que talvez aquela menina já sentisse algo na música que ainda não sabia explicar. Ela queria liberdade, só não sabia, ainda, o que liberdade significava.
George Michael e a busca por liberdade
Para entender por que essa música me toca tanto, precisei voltar à história de quem a escreveu. Em 1990, George Michael vivia um momento particular em sua carreira. Ele já havia experimentado o enorme sucesso do Wham! e o fenômeno mundial de Faith. Sua imagem havia se tornado parte do produto: o rosto, o corpo, a roupa, a sensualidade, os videoclipes, a figura do astro.
Mas havia um problema: aquela imagem já não dava conta de quem ele estava se tornando. George estava cansado de ser definido por uma imagem que ele próprio havia ajudado a construir. Freedom! ’90 nasce justamente desse conflito. Não era simplesmente uma música dizendo "quero ser livre", era uma espécie de acerto de contas com uma versão de si mesmo.
Com a fama. Com a aparência. Com as expectativas. Com a persona que havia sido criada. Com aquilo que o mundo enxergava quando olhava para George Michael. E existe algo muito interessante nisso: George não queria necessariamente destruir o passado. Ele queria deixar de ser definido por ele. Era como se dissesse:
> "Eu fui essa pessoa. Essa imagem fez parte da minha história. Mas eu não sou apenas isso."
E isso aparece de maneira muito bonita em um dos trechos da música:
> “I gotta have some faith in the sound”
> “Eu preciso ter fé no som.”
Para mim, existe algo muito poderoso nessa frase. Como se ele estivesse dizendo: “Olhem menos para a imagem. Escutem o que eu tenho para dizer.” E há uma ironia maravilhosa no que aconteceu depois. George nem sequer quis aparecer no videoclipe de Freedom! ’90. No lugar dele, apareceram algumas das maiores supermodelos da época. E objetos que haviam se tornado símbolos da sua imagem anterior — como a famosa jaqueta de couro — foram destruídos.
Era uma ruptura visual com o George Michael que o público conhecia. A mensagem parecia clara: “Eu não quero mais ser definido por aquilo que vocês veem.” E isso me toca porque, muitos anos depois, eu também precisei começar a perguntar: Quem sou eu quando tiro de mim aquilo que aprendi que deveria ser?
A busca pela minha própria voz
Durante muito tempo, eu fui uma menina muito obediente. Aprendi a fazer o que esperavam de mim. A pensar nos outros. A não incomodar. A guardar algumas coisas: meus desejos, minhas necessidades, minha voz. E talvez eu tenha confundido, durante parte da vida, ser uma pessoa boa com não dar espaço suficiente para mim mesma. Eu me escondi. Não necessariamente do mundo. Às vezes, de mim.
E o curioso é que aquela menina dos diários tinha sonhos enormes. Ela queria conhecer o mundo, aprender línguas, viajar, fazer diferença, ser maior. Os sonhos estavam lá. O que eu ainda não sabia era que uma coisa é sonhar com uma vida maior; outra é permitir-se ocupar o espaço que essa vida exige. Talvez eu tenha passado muito tempo desejando liberdade sem perceber que liberdade também exigiria de mim uma voz. Uma voz para dizer:
- eu quero.
- eu preciso.
- eu não quero.
- isso é importante para mim.
A música que cresceu comigo
Os anos passaram. Eu cresci. Casei. E Freedom! ’90 continuou comigo. Eu cantava no carro, com aquela alegria de quem simplesmente ama uma música. E o Fernando estava ali, ao meu lado. Ele sorria quando me via cantando e às vezes dizia: "Você gosta mesmo dessa música, né?". Eu gostava. Muito. Naquele momento, eu não fazia ideia de que aquela mesma música ainda me acompanharia por tantas versões da minha vida: a adolescente, a mulher, a esposa, a mulher que sonhava, a mulher que se escondia e, depois, a mulher que precisaria se reconstruir.
É curioso como algumas músicas fazem isso. Elas não ficam paradas no passado. Elas crescem conosco. A música continuava a mesma. Eu é que estava acumulando novas histórias para ouvi-la.
A reviravolta de 2025
Então veio 2025. E a vida mudou. O câncer entrou na minha história e trouxe uma reviravolta que eu jamais teria escolhido. Durante muito tempo eu disse: “O câncer foi a melhor coisa que me aconteceu.” Hoje eu penso diferente. Não porque eu não reconheça tudo o que nasceu em mim depois dele, mas porque aprendi uma coisa importante: eu não preciso chamar de bênção aquilo que me feriu para reconhecer as bênçãos que nasceram depois.
O câncer não foi a melhor coisa que me aconteceu. A doença não foi um presente. A dor não foi necessária para que eu me tornasse quem sou. Mas, diante do que aconteceu, eu comecei a fazer escolhas sobre quem queria ser. E talvez essa seja uma diferença muito importante. Nós nem sempre escolhemos aquilo que nos acontece. Mas, muitas vezes, podemos escolher o que faremos com aquilo que nos aconteceu.
Saindo do esconderijo
Foi aí que comecei a perceber uma coisa que talvez tenha sido ainda mais transformadora do que eu imaginava. Eu estava escondida. Tinha passado muito tempo sendo forte para os outros. Sendo disponível. Sendo obediente. Fazendo o que precisava ser feito. Mas comecei a perguntar:
- E eu?
- O que eu quero?
- O que eu preciso?
- O que me faz feliz?
- O que ainda sonho?
- O que eu quero construir?
- Que voz minha eu deixei de ouvir?
Essas perguntas não apareceram todas de uma vez. Mas, uma vez que começaram, eu já não conseguia fingir que não existiam. Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis sobre transformação: depois que você começa a se enxergar, fica muito difícil voltar a fingir que não se viu.
Reconstruir é construir novamente
Há um processo de reconstrução. Hoje é setembro de 2026. No dia 8 de setembro, passei pela minha segunda cirurgia, desta vez para uma reconstrução mamária. E é impossível viver uma reconstrução do corpo sem pensar na reconstrução que também acontece dentro da gente.
Mas aprendi uma coisa: reconstruir não significa voltar a ser como antes. Reconstruir é construir novamente. Com o que aprendi. Com o que mudou. Com as marcas. Com a experiência. Com uma consciência que antes eu não tinha. Eu não quero voltar a ser a Anna de antes. E isso não significa que eu não ame aquela Anna. Eu amo. Tenho carinho por ela. Ela fez o melhor que podia com aquilo que sabia. Mas agora eu quero continuar.
Quero descobrir quem posso ser daqui para frente. Quero dar voz às minhas necessidades. Quero aprender a ocupar meu espaço sem culpa. Quero continuar sonhando. Quero viver. E quero entender cada vez mais uma pergunta que tem se tornado muito importante para mim: Como Deus quer que eu viva? Porque Deus está muito presente nessa história. Nas páginas que escrevi. Nas coisas que compreendi. Nas coisas que ainda estou tentando compreender. Na força que encontrei. Nas pessoas que colocou no meu caminho. E nessa mulher que está nascendo dentro de mim.
Talvez minha liberdade não seja simplesmente fazer tudo aquilo que quero. Talvez seja ter coragem de viver com verdade aquilo que Deus colocou dentro de mim.
“I don't belong to you”
Existe outro trecho da música que, hoje, escuto de uma maneira completamente diferente:
> “I don't belong to you.”
> “Eu não pertenço a você.”
George estava falando, entre outras coisas, sobre a relação entre a pessoa pública e a imagem que havia sido construída para o público. Quando escuto isso hoje, não penso apenas na relação de um artista com quem o acompanha. Penso em quantas vezes nós também vivemos como se pertencêssemos às expectativas dos outros. Àquilo que esperam. Àquilo que nos ensinaram. Àquilo que acreditam que devemos ser.
E talvez liberdade seja começar a perceber: eu posso amar as pessoas sem pertencer às expectativas delas. Posso cuidar. Posso amar. Posso estar presente. Mas também posso existir.
A lembrança de Fernando
Existe uma parte dessa música que sempre vai ter um lugar especial na minha história. Eu cantando no carro. Fernando ao meu lado. Ele sorrindo. Aquela pergunta: "Você gosta mesmo dessa música, né?". Hoje, quando penso nisso, sinto saudade. Muita. Mas não quero transformar essa lembrança em uma despedida. Porque não é assim que eu sinto. Ele é o homem que amo. E aquela é uma parte da nossa história. A música guarda aquele momento. Guarda o sorriso dele. Guarda a alegria de me ver cantando. Guarda uma parte de nós.
E talvez seja justamente por isso que eu não queira que a palavra liberdade signifique apagar. Liberdade também pode ser levar comigo aquilo que amo e, ainda assim, continuar crescendo. Posso sentir saudade. Posso me emocionar. Posso lembrar. E continuar. Uma coisa não cancela a outra.
A música não mudou. Eu expandi.
E aqui está talvez a coisa mais bonita que descobri sobre essa música. O que eu sentia quando adolescente não desapareceu. O que eu sentia cantando no carro também não desapareceu. Nada foi substituído. Foi acrescentado. A menina que sonhava em conhecer o mundo ainda está aqui. A mulher que queria fazer diferença ainda está aqui. A esposa que cantava no carro ainda está aqui. A mulher que passou por 2025 ainda está aqui. A mulher que está se reconstruindo em 2026 também está aqui. Nenhuma precisou desaparecer para que outra pudesse nascer. Elas se somaram.
Por isso, talvez eu não tenha mudado tanto quanto penso. Talvez eu tenha apenas retirado algumas camadas que me escondiam de mim mesma. Talvez a liberdade não tenha criado uma nova Anna. Talvez tenha permitido que aparecesse uma Anna que já estava lá.
Reflexões para a sua jornada
Talvez seja aqui que minha história deixe de ser apenas minha. Porque eu não escrevo sobre o que vivi apenas para contar o que aconteceu comigo. Escrevo porque talvez alguma coisa da minha história encontre a sua. Talvez você também tenha uma versão de si que ficou escondida. Talvez tenha aprendido a ser obediente demais. Talvez tenha colocado as necessidades de todo mundo na frente das suas. Talvez tenha sonhos que continuam esperando. Talvez esteja vivendo uma fase em que precisa reconstruir alguma coisa. E talvez você também esteja olhando para a sua vida e percebendo: “Eu não sou mais quem eu era.”
Se for esse o caso, talvez você não precise enxergar isso como um problema. Talvez seja crescimento. Talvez seja expansão. Então, antes de continuar vivendo no automático, talvez valha a pena parar e perguntar:
- Quem eu era?
- Quem eu sou hoje?
- O que mudou em mim?
- O que permaneceu?
- Onde eu ainda estou me escondendo?
- Que desejo meu precisa voltar a ter voz?
- Que necessidade minha eu preciso aprender a respeitar?
- O que precisa ser reconstruído?
- E quem eu quero me tornar daqui para frente?
E existe ainda uma pergunta que, para mim, muda todas as outras: Como Deus quer que eu viva a mulher que estou me tornando? Talvez você não tenha as respostas. Eu também não tenho todas as minhas. Mas talvez o primeiro passo não seja ter respostas. Talvez seja começar a fazer as perguntas certas.
E talvez seja justamente por isso que eu continue amando Freedom! ’90. Eu não posso dizer que hoje finalmente entendo tudo o que aquela música significa para mim. Talvez eu esteja apenas entendendo mais um pedaço. A menina que ouviu Freedom! ’90 pela primeira vez ainda vive em mim. A mulher que a cantava no carro também. A mulher que sonhava em conhecer o mundo também. A mulher que precisou se reconstruir também. Nenhuma delas desapareceu. Elas foram se somando. A música não mudou. Eu expandi. E talvez amanhã ela me conte outra coisa. Quem sabe. Afinal, eu ainda estou me tornando.
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